São José dos Campos - SP, 

A HISTÓRIA DO GRUPO GIRASSOL  

O Grupo Girassol tem o seu início no século passado no segmento agropecuário. No decorrer dos anos houve uma diversificação das atividades, atuando hoje em áreas da saúde, tecnologia, engenharia e esportes, com ações direcionadas ao atendimento a dependentes químicos e co-dependentes, a inclusão sócio-desportiva e ao desenvolvimento de software.
Mas foram os precursores do grupo, os responsáveis pela exposição cronológica de fatos e esse enredo começa no recuo do tempo, no século passado, início da década de 30.
Dois adolescentes se conhecem e iniciam o namoro. O cenário dessa época é Itatiaia, antiga Campo Bello, no estado do Rio de Janeiro. Cidade pequena, na divisa com São Paulo, cuja economia além do turismo, era movimentada com as fazendas de gado de leite. A linha férrea da Estrada de Ferro Central do Brasil cortava a cidade ao meio passando pelo centro, o que ajudava na agitação da época.
Os sonhos do namoro, a felicidade e a serenidade do espirito de ambos, contrastavam com o conturbado momento político. O país passava por uma fase difícil, com desemprego, insatisfação popular e economia abalada. Essa fase de transição era consequência da crise do café do final da década de 20. Estoura a Revolução de 1930. O país entra em confusão. Com a economia cambaleando, a agitação e o medo dominavam as pessoas. Época da ascensão de Getúlio Vargas no campo político. Fim de uma era. O país passava por uma comoção política. As mulheres iriam adquirir o direito de votar. Novos tempos.

Mas nada disso afetava o oásis desse jovem casal. Ele trabalhando em uma fazenda em Itatiaia, frequentava com a namorada os bailes da cidade que eram realizados pela sociedade local. Aliás, diga-se de passagem, ótimos dançarinos. Um fato curioso é que quando havia baile, ela ia até uma pedra enorme, que fica hoje às margens da Rodovia Presidente Dutra e na qual havia o logotipo de uma famosa água mineral (até hoje se pode ver) e sobre ela acenava com um lenço branco para o namorado, que se encontrava na fazenda trabalhando do outro lado da estrada. Era o sinal de que haveria baile na cidade.

A TRAJETÓRIA DE CADA UM - RITINHA

10-4-1931 Campo Bello
Aos 15 anos de idade

Rita de Cássia, chamada de Ritinha pelos amigos e de Tina pelos familiares, nasceu de uma família humilde em Itatiaia (RJ). É a segunda de um total de 8 filhos. A mãe era dona de casa e o pai trabalhava de eletricista na usina de leite da cidade. Como costume da época, aprendeu desde cedo com a sua mãe as prendas domésticas. Cozinhava muito bem. Fazia doces saborosos e pratos salgados maravilhosos. Depois do casamento, sofre influência da cozinha mineira, a qual assimila com facilidade. Costurava com habilidade. Era ela que fazia as suas roupas e mais tarde também a dos filhos e, não havia segredos nas confecções dos vestuários. Quando menor, ajudava a mãe nos cuidados dos irmãos menores, na qual tinha grande apego e afeição. Chegava a ir namorar carregando o irmão caçula no colo.

Com a irmã em 1936

Morena dos cabelos pretos era vaidosa e sua beleza física chamava atenção. Foi convidada quando ainda adolescente a participar do concurso Miss Itatiaia. Na época, as candidatas tinham que vender votos para as pessoas e eram os seus admiradores que as elegiam. Ganhou o concurso.
Mas aos 16 anos, outra revolução, a de 1932, marcou a vida da adolescente Ritinha. A sua família morava próxima à estação ferroviária de Itatiaia. Naqueles primeiros dias frios de Julho da serra fluminense havia uma movimentação estranha na cidade, soldados desembarcavam vindos da capital federal, as pessoas caminhavam com fisionomia preocupada e boatos corriam como fogo em rastilho de pólvora trazendo apreensão. Para ela parecia distante todos aqueles rumores e de coisas que nem entendia naquela fase da vida.
Estava a ajudar a mãe no trabalho de casa quando o seu pai chega agitado e avisa que vão precisar fugir. A casa dos seus pais acabou ficando bem no meio de um combate da guerra civil. Uma mistura de angustia, medo e confusão toma conta de si, não há tempo de pegar nada. Atingidos em cheio pelo conflito e sem saber muito bem o que ocorria, precisam sair com a roupa do corpo. O barulho dos tiros já se fazia ouvir e cada vez mais perto. Gritos, correria pelas ruas de terra batida, o pai nervoso (nunca o tinha visto assim), cobra agilidade. Não há tempo, precisam ir embora. O cachorro, cadê o cachorro de estimação? O pai a puxa pelo braço, saem à rua em busca de um refúgio, na casa de conhecidos, longe da cidade. Vê soldados correndo. Parece que estão fugindo também. Um tem sangue na roupa. Vai se lembrar pelo resto da sua vida desse sangue “vivo”, empapando o uniforme. “Não para”, “corre”, “corre”, grita a mãe e de mão dada para o irmão, passam por uma cerca, entram em um pasto e ofegante deixa a cidade para trás e o seu cachorro de estimação. E chora por não tê-lo levado. Não tinha noção que estava vivenciando um momento da história do seu país.
Nas histórias da sua vida, ela vai contar sobre o barulho dos tiros, dos disparos de metralhadora, que ela chamava de matraca, do ambiente de caos que se instalou e da movimentação dos soldados. Vai contar também que enfrente a sua casa tinha um soldado com metralhadora (na verdade era um ninho de metralhadora) e que só olhava pela fresta da janela, escondida da mãe, que a proibia.
Só retornaram tempos depois e o que encontraram era desolador. Marcas de tiros nas paredes e sangue dentro da casa compunham um cenário de terror. Houve um confronto ali.

O cachorro de estimação.

O que havia de valor foi saqueado, o que não pode ser levado foi destruído. Havia muita sujeira pelo quintal. No galinheiro, nem uma ave sobrou, nem o pobre “Zequinha”, o galo “china” escapou.
Apesar de toda essa tristeza, um momento de alegria. Quando subiam à rua que moravam, nesse retorno, antes de chegar a casa, Ritinha avistou Bob, o seu cachorro. Abanando o rabo, fazendo festa, rolando pelo chão, recepcionou a família. Milagrosamente estava vivo. Parece que havia sido mascote dos soldados, sabe-se lá de que lado. Estava até gordinho. E agora ela chorava de felicidade.
Casou-se aos 20 anos e a cidade perdeu a sua miss que se mudou com o seu marido para Cruzeiro, uma cidade próxima, mas já no estado de São Paulo. Mas nunca deixou que suas raízes se perdessem.

A TRAJETÓRIA DE CADA UM - GERALDO

Geraldo com o inseparável Tagibi

O sétimo filho de um total de 9 de uma família mineira ligada ao meio rural, nasceu em Lima Duarte( MG) e logo cedo ganhou  gosto pelo trabalho no campo. A família saiu de Minas Gerais e foi para o estado do Rio de Janeiro onde continuaram com a pecuária.
Aos 14 anos já tomava conta de uma fazenda. Aprendeu a fazer tudo, entendia “do recado” como dizia, o que o ajudou muito na sua profissão. Cuidava do gado, da alimentação, tirava leite, plantava, rachava mourões, fazia cerca, roçava pasto, arrancava praga, andava a cavalo, enfim tinha a fazenda em suas mãos. Muito diferente do que se vê hoje, quando alguns que se dizem fazendeiros não sabem nem quando uma vaca está mojando ou no cio e muito menos tirar leite.
Desde cedo acostumou a se levantar antes do sol nascer para cuidar da fazenda. Não teve muito tempo para brincar. A situação exigia adquirir responsabilidade e a ganhar a vida ainda na adolescência. Contava que quando estava só na fazenda, saia para juntar o gado de madrugada e do alto do morro via as luzes da cidade de Resende (RJ). Sem condições naquele momento, chegava a chorar com vontade de poder passear pela cidade.
Arrendando terras para poder plantar e tirar leite, sua diversão era ir aos finais de semana aos bailes que aconteciam em Itatiaia. Perdeu a mãe quando criança (aos 5 anos) que morreu aos 27 anos durante um trabalho de parto. Começou a vida sozinho, sem ajuda e foi galgando os degraus que apareciam. Era persistente nos seus sonhos e objetivos.
Muito religioso era devoto de Nossa Senhora Aparecida e São José. Dizia que a imagem de São José da igreja matriz de Itatiaia era milagrosa. Sempre ia lá para orações, pedidos e agradecimentos, mesmo depois de muitos anos morando fora.
Conheceu a sua futura esposa em um dos bailes da cidade. Namoraram por quase 6 anos e em1936 se casam na igreja matriz de Itatiaia, igreja do seu santo devoto.

A VIDA APÓS O CASAMENTO

10 - 02 - 1936
10-02-1936

Depois das núpcias, o casal se muda para Cruzeiro no estado de São Paulo. Geraldo arrenda uma fazenda e começa a criação de gado de leite e a plantar abóbora. Essa plantação vai ser uma marca na sua vida. Nesse local, dois episódios cruzam a vida do casal novamente com a Revolução Constitucionalista de 1932. Contava que na antiga casa sede dessa fazenda onde moravam havia manchas escuras que escorriam do teto e deixavam as paredes com um aspecto estranho, como se um líquido tivesse sido jogado no sótão, escorrido pelos vãos da madeira do forro da casa e descido pela parede. Por mais que se pintasse o local (as paredes eram pintadas com cal), sempre descascava no lugar. Um dia a sua esposa comentou com um antigo empregado da fazenda que lhe disse serem as manchas escorridas, sangue dos soldados da Revolução, pois a casa serviu de hospital para a tropa e o sótão ocupado como enfermaria. Possivelmente eram de feridos graves ou até de mortos que lá permaneciam até que os seus corpos fossem retirados.
Certa vez quando apagavam fogo que havia pegado no pasto, começaram explosões no meio do mato e todos precisaram correr e se abrigarem tamanho era esses estouros. Eram munições e explosivos da época da Revolução Constitucionalista de 32 que haviam sido enterradas pelos soldados quando ocuparam essa fazenda. Ela ficava próxima ao túnel ferroviário da Serra da Mantiqueira, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Intensos combates aconteceram neste local com mais de 200 mortos.
Durante 4 anos mora nessa localidade até que fica sabendo que uma outra cidade, ali perto, oferecia melhores condições para aquilo que almejava na vida. Havia ótimas oportunidades de expandir os negócios. O seu lado empreendedor falou mais alto. Ele vendeu toda a produção de abóbora da fazenda e com o dinheiro arrecadado embarcou o gado e outros animais em um trem de carga da Central do Brasil. Destino: São José dos Campos (SP), a terra dos sonhos e da esperança.
Nesse período, a família aumentou. Já eram pais de um casal de filhos.

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS- A CIDADE ESCOLHIDA

A São José dos Campos dos anos 40 era uma cidade pequena, muito procurada por doentes de tuberculose, que aqui vinham para se tratar e que iniciava a sua expansão. A sua economia rural estava se modificando, reestruturando e se modernizando.
As grandes propriedades cafeeiras estavam dando lugar à pecuária leiteira. A crise do café de 1929 deixou a sua marca.
A região se preparava para se tornar uma das maiores bacias leiteiras do estado de São Paulo e quem ajudou nessa transformação foram às famílias mineiras ligadas à pecuária que vieram para São José dos Campos.
Aproveitando a oportunidade que a vida lhe dava, aliada ao seu potencial produtivo, Geraldo arrendou uma fazenda antiga (que a sua jovem esposa dizia ser assombrada) e inicia o seu trabalho na nova terra.
A maneira de trabalhar era inovadora por essas terras paulistas. Trazia toda a sua experiência na lida com o gado. Entendia como poucos desta atividade. Chamava atenção à maneira de como tratava os animais. Parecia que conversava com eles. Tudo prosperava em suas mãos porque gostava e sabia o que fazer no manejo rural. Era comum vê-lo beijar uma vaca e dizer: “Isso é que é vida”. Também falava que “o dono precisa ser o primeiro a chegar e enfiar o pé na bosta da primeira vaca que entrar no curral”.
Com muito trabalho foi prosperando. Levantava às 3 horas da madrugada todos os dias, e ficava na lida até o sol se por, não importava como estava o tempo, se frio, calor, chovendo ou não.”Eu sou o homem do cedo”, dizia. E consegue realizar um sonho que já vinha perseguindo: a compra de sua primeira propriedade.
Agora ele iria trabalhar no que é seu, na sua própria fazenda e se estabeleceria definitivamente em terra joseense.

TERRA PRÓPRIA

Quando comprou a sua terra colocou em prática toda a bagagem de conhecimento adquirida ao longo dos anos. Percebeu que a maioria das propriedades rurais da época eram administradas de forma empírica, amadora, com pouco conhecimento técnico, a não ser, o que era passado de pai para filho e não queria ser mais um, não queria ser, como ele mesmo dizia,” um fazendeiro de gado ”, aquele que não cria, não produz, não transforma, mas passa a vida admirando e adquirindo o que os outros produzem . Queria uma identificação e passou a gerenciar a sua fazenda de forma empresarial, expandindo a capacidade produtiva da propriedade. E assim fez.
Começou pela base, investindo na nutrição animal, na formação de capineiras e pastos, na escolha do capim ideal, na construção de piquetes, na qualidade da água, na melhoria genética do rebanho, foi um dos pioneiros na inseminação artificial na região, na importação de reprodutores e matrizes, na seleção de raças bovinas que melhor se adaptavam a região, na capacitação da mão de obra, substituindo a ordenha manual pela mecânica, investindo em equipamentos e maquinários modernos, na diversificação da produção da propriedade, na industrialização dos produtos lácteos, aplicando recursos na infraestrutura, na logística e na preservação do meio ambiente, (nascentes, flora e fauna), enfim, uma visão muito diferente do que se observava na época.
Com a diversificação da atividade principal da fazenda que era a pecuária leiteira, outras passaram a serem comuns como a criação de suínos, aves e as culturas de milho, café e cana.
Antes da energia elétrica chegar ao campo, já produzia a sua própria eletricidade gerada na fazenda, aproveitando a força da água para mover uma turbina.
A produção leiteira chegou a ultrapassar os 4000 litros/dia de leite tipo” B” o que para a época era algo extraordinário. Com o tempo, todo esse investimento foi rendendo frutos, aumentando o seu patrimônio com a aquisição de outras propriedades vizinhas.
Elegeu-se vereador na cidade quando não havia remuneração para ser membro da câmara municipal. Participou no estabelecimento da cooperativa de laticínios de São José dos Campos.
Chegou a ter uma leiteria e sorveteria no centro comercial da cidade e uma concessionária de carros e tratores, mas gostava mesmo era da roça.
Aqueles tempos difíceis, de luta, de sacrifícios e de conquistas ficaram para a história. Eles não se encontram mais em nosso convívio.
Ficou a obra.

LEMBRANÇAS DE UMA ÉPOCA - ARQUIVO DE IMAGENS DA GIRASSOL.

Década de 30: O cachorro da foto chamava-se Tagibi e era o amigo inseparável de Geraldo. Até quando ia namorar, o cachorro o acompanhava. Tagibi viveu por 22 anos.

 



Início dos anos 40: Esse boi que aparece na foto é o Rouxinol. Esse boi era tão sem-vergonha que quando Ritinha fazia bolo de fubá não podia deixar perto da janela, pois, ele adorava ir até lá para comer.

 



Meado dos anos 40: Churrasco na fazenda. O inseparável Tagibi, de olho na carne, chegou a conhecer os primeiros filhos do casal.

 

 


Início dos anos 90: Fazenda Girassol. Nessa época o gado predominante na fazenda era o gado jérsei. Na foto à esquerda, a vaca deitada ao fundo chamava-se Teimosa. Ganhou esse nome porque era a última a sair do cocho. Extremamente mansa, a sua ordenha era feita sem precisar amarrar as suas pernas. A foto à direita é da Coelhinha, a vaca predileta de Geraldo, uma girolanda.

 


Década de 60: Um dos reprodutores da fazenda durante exposição na Tecelagem Paraíba, hoje Parque da Cidade de São José dos Campos. Foi um dos animais da fazenda premiados.

 

 



Década de 60: Bezerros da fazenda. Geraldo tinha um cuidado todo especial com os animais que nasciam na sua fazenda.

 



 

 

 


Década de 50: Geraldo com sua família de origem no estado do Rio de Janeiro.

 

 

 

Década de 30: Geraldo com seu pai durante uma viagem.

 

 

 


Geraldo em 1945.

 

 

 

 

Foto da fazenda em Cruzeiro - SP.

 

 


Década de 60: Recepcionando o governador de Minas Gerais da época, Sr. Magalhães Pinto quando de sua visita à São José dos Campos.

 


 

 

Animais da raça Jersey da Fazenda Girassol.

 


 

 

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